Gerando cultivares de braquiárias via melhoramento genético

Cacilda Borges do Valle

Engenheira Agrônoma

Pesquisadora da Embrapa Gado de Corte

 

Pastagens cobrem as maiores extensões de área na Terra e são utilizadas como fonte de alimento por várias espécies de animais ruminantes. Isso, porque esses animais são capazes de transformar a forragem em proteína de grande valor para o homem. Ruminantes podem aproveitar áreas impróprias para agricultura bem como resíduos dessa agricultura e produzir alimento e renda.

 

O Brasil conta com clima, solo e topografia que lhe conferem uma aptidão natural para a pecuária a pasto, produzindo o chamado “boi de capim”, sem riscos associados às doenças decorrentes da ingestão de proteína animal pelo gado, como o “mal-da-vaca-louca”, e observando-se o bem estar animal. Este diferencial qualitativo do produto brasileiro conquistou espaço nos mercados nacional e internacional, colocando o País como o maior exportador mundial de carne bovina.

 

As pastagens tropicais brasileiras, no entanto, são formadas por poucas variedades, e essa baixa variabilidade implica em risco, seja por incidência de pragas ou doenças, ou devido a fenômenos climáticos extremos causando seca ou alagamentos. Assim, programas de desenvolvimento de novas forrageiras visam gerar novidades que permitam garantir a produtividade dos rebanhos contornando as limitações do ambiente.

 

Muitas vezes nos perguntam o porquê da demora na liberação de novas cultivares e a resposta está na necessidade de comprovar o valor para ruminantes. Não basta a forrageira se adaptar bem ao solo e clima, produzir massa de forragem e resistir a pragas e doenças, precisa engordar o boi. Os critérios de seleção têm que ser o desempenho animal e a sustentabilidade/rentabilidade do sistema. Esse processo pode demorar até dez anos e envolve profissionais de diferentes especialidades para que a nova cultivar seja oferecida ao mercado com recomendações de plantio, manejo de formação e de pastejo, resultados de ganho animal, produção de sementes, indicações de resistência a pragas e doenças, além de informações sobre a identificação taxonômica e adaptação a biomas para assegurar sua longevidade.

 

Melhoramento

 

Falando agora do melhoramento genético propriamente dito, este implica, inicialmente, em selecionar os parentais, cruzar, avaliar as progênies (filhos desses cruzamentos), multiplicar as melhores para avaliar com mais detalhes em canteiros maiores e em diferentes regiões do Brasil e, por fim, em ensaios sob pastejo, repetindo-se cada ensaio por pelo menos dois anos, para dar mais segurança quanto a variações climáticas.

 

O objetivo maior do melhoramento genético é combinar características de interesse presentes em parentais distintos. É cruzar “o bom com o bom” para cada vez obter híbridos melhores. No melhoramento genético de braquiária, por exemplo, busca-se a resistência a cigarrinhas-das-pastagens presente no capim marandu, associada à adaptabilidade aos solos ácidos e pobres da B. decumbens, e o bom valor nutritivo da B ruziziensis. Esses cruzamentos entre espécies nem sempre são possíveis, pois há plantas com diferentes números de cromossomos (e se eles não se pareiam bem na divisão celular, ocorrem anormalidades e sementes chochas) e a grande maioria é apomítica.

 

Explicando: apomixia é uma reprodução assexuada onde o embrião da semente não é fecundado e, portanto, é um clone da planta mãe. Sem plantas sexuais seria impossível cruzar, mas por um extenso trabalho numa grande coleção importada da África, foi possível identificar algumas plantas sexuais e com isso iniciar cruzamentos, tanto misturando espécies, como praticando o melhoramento de uma única espécie, cruzando plantas sexuais com algumas apomíticas superiores. Assim, a Embrapa Gado de Corte conduz três programas de melhoramento simultâneos, um com B. decumbens, outro com B. humidicola e um terceiro cruzando B. ruziziensis com B. brizantha ou B. decumbens, gerando novos híbridos a cada dois anos, assegurando uma produção contínua de nova variabilidade.

 

Hoje já temos perto de 6 mil híbridos em avaliação, com pelo menos um deles sob pastejo, visando lançamento em 2015-2016. Com essa produção contínua de híbridos, pretendemos atender às demandas atuais e futuras de, por exemplo, variedades resistentes a uma praga, ou adaptadas a sistemas integrados com lavoura e ou floresta, ou melhor, adaptadas a solos encharcados ou de melhor valor nutritivo para ruminantes. A possibilidade de poder cruzar braquiárias só aconteceu depois de quase 20 anos de estudos básicos, mas abriu um novo cenário para as pastagens tropicais e vem impulsionando o mercado de sementes forrageiras, onde o Brasil é líder tanto de produção como exportação. Variedades geradas aqui impactam toda a América Latina e já começam a ganhar o continente africano por meio das empresas brasileiras que se internacionalizaram.

 

 

Kadijah Suleiman

Jornalista, MTb RJ 22729JP

Núcleo de Comunicação Organizacional (NCO)

Embrapa Gado de Corte

Campo Grande/MS

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

 

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